Por: Flávia Ramos Fávero e Alexandra Reis
Antes que qualquer palavra seja dita, nosso cliente já está avaliando quem está diante dele. A postura, o uniforme, o olhar — tudo isso comunica, e comunica rápido.
Foi sobre essa comunicação silenciosa que Flavia Favero discursou no XII Simpósio Carioca de Hotelaria Hospitalar (SCHH) em setembro de 2026, propondo um olhar diferente sobre um tema que costuma ser tratado apenas como estética ou padronização: a apresentação pessoal como parte do cuidado em saúde. Reproduzimos a seguir a reflexão na íntegra.
Sobre o que vamos falar:
O Uniforme Como Extensão Do Cuidado:
À primeira vista, pode parecer apenas estética, moda ou padronização. Mas, quando falamos de saúde, o uniforme comunica muito mais do que aquilo que a gente veste.
Ele comunica cuidado.
Comunica organização.
Comunica pertencimento.
Comunica profissionalismo.
E, principalmente, comunica ao outro: “eu me importo com a forma como você me percebe e com a experiência que você terá comigo.” E é aí que entra o dress code, a apresentação pessoal e toda a nossa comunicação não verbal.
Tudo comunica, antes mesmo da primeira palavra
Antes mesmo de falarmos qualquer palavra, nós já estamos comunicando.
A nossa postura comunica.
A nossa expressão comunica.
A maneira como cuidamos da nossa aparência comunica.
A roupa que vestimos comunica.
E isso é especialmente importante dentro de um ambiente de saúde. Porque, quando um paciente ou familiar chega a um hospital, ele muitas vezes está em um momento de fragilidade, de medo, de insegurança. E ele precisa reconhecer rapidamente quem está ali para cuidar dele.

A imagem também acolhe
Quando eu olho para um profissional bem apresentado, com um uniforme adequado, limpo, organizado e coerente com aquele ambiente, existe uma mensagem silenciosa acontecendo:
“Você está em um lugar onde existe cuidado.”
E cuidado não está apenas nos grandes investimentos, na arquitetura, na tecnologia ou nos equipamentos. Está também nos detalhes.
Porque podemos ter um ambiente lindo, sofisticado, moderno, impecável. Mas, se as pessoas que estão dentro dele não traduzirem esse mesmo cuidado, existe uma ruptura na experiência.
Não adianta o ambiente comunicar excelência e o comportamento comunicar descuido.
Cuidado não é julgamento, é consciência profissional
E aqui queremos fazer uma ressalva muito importante: quando falamos em apresentação pessoal, não estamos falando de julgar pessoas.
Desleixo não é demérito. Não estamos falando de valor pessoal, de condição financeira ou de beleza.
Estamos falando de cuidado e de consciência profissional. A forma como eu me apresento é uma escolha de comunicação.

Autocuidado é também cuidado com o outro
Existe uma relação muito interessante entre autocuidado e cuidado com o outro.
Quando eu cuido da minha aparência, do meu uniforme, da minha postura, da forma como eu chego para trabalhar, eu estou demonstrando que compreendo o impacto que a minha presença causa naquele ambiente.
É como se eu dissesse, sem precisar falar:
“Eu me preparei para estar aqui.”
E quem se prepara para cuidar de si também demonstra uma disposição para cuidar do outro.
Por isso, o uniforme não pode ser visto apenas como uma peça de roupa. Ele é parte da identidade daquele profissional e daquela instituição.
A coerência entre o que se diz e o que se demonstra
Existe ainda um outro ponto fundamental: a nossa comunicação verbal precisa estar alinhada à nossa comunicação não verbal.
Não adianta eu dizer “Bom dia, posso ajudá-lo?” se o meu corpo, meu olhar e minha expressão dizem exatamente o contrário.
Da mesma forma, não adianta eu estar impecavelmente uniformizada se a minha fala é ríspida, se não tenho empatia ou se não presto atenção à pessoa que está diante de mim.
O cuidado precisa aparecer no conjunto.
Eu preciso falar cuidado.
Eu preciso parecer cuidado.
Eu preciso praticar cuidado.
É essa coerência que constrói confiança.
A primeira impressão acontece em segundos
A primeira impressão acontece muito rapidamente. Estudos sobre percepção social mostram que formamos impressões iniciais em poucos segundos, a partir de sinais visuais, comportamentais e contextuais.
E, em saúde, isso ganha uma dimensão ainda maior, porque muitas vezes a pessoa não conhece o profissional.
Ela não sabe ainda se ele é competente, atencioso ou acolhedor. Então, antes de qualquer interação mais profunda, ela procura sinais que indiquem se está segura. E a nossa apresentação é um desses sinais.

Vestir uma marca é representar uma cultura
Por isso, quando pensamos em uniformes, precisamos pensar além do tecido, da cor, do corte ou do design. Precisamos pensar: o que queremos comunicar? Quem é essa instituição? Como queremos que nossos pacientes se sintam? Que mensagem queremos transmitir quando esse profissional entra em uma unidade, em um quarto ou em uma recepção?
Porque vestir uma marca também é representar uma cultura.
Não se trata apenas de apresentar novos uniformes. Trata-se de identidade, pertencimento, profissionalismo, comunicação e cuidado — de fazer com que aquilo que a instituição acredita seja percebido também através das pessoas que a representam.
Uma extensão do cuidado
“Hospitalidade não está somente no que fazemos. Está também na forma como fazemos o outro se sentir.”
E, muitas vezes, esse sentimento começa antes mesmo da primeira palavra.
Começa no olhar.
Começa na postura.
Começa na nossa presença.
Começa na maneira como estamos vestidos.
Porque, no final, não são apenas os uniformes que cuidam. São as pessoas que os vestem.
E quando essas pessoas entendem que sua imagem, sua fala, sua postura e suas atitudes fazem parte da experiência do paciente, o uniforme deixa de ser apenas uniforme.
Ele passa a ser uma extensão do cuidado.
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A fala de Flavia e Alexandra é um convite a olhar para os detalhes que sustentam a experiência de quem passa por um hospital — muitas vezes antes mesmo de uma palavra ser dita. Cuidar bem também é isso: cuidar de como cada profissional se apresenta, se porta e se faz presente diante de quem precisa dele.

