Radioterapia: 10 dicas importantes na implantação de Acelerador Linear

radioterapia acelerador linear

A radioterapia é um dos principais tratamentos do câncer, considerado atualmente o principal problema de saúde pública mundial e sua mortalidade está aumentando, justificado em parte pelo envelhecimento e crescimento populacional, além de outros fatores como prevalência de fatores de risco. De acordo com o INCA, o Brasil está com a estimativa anual de 625 mil novos casos de câncer no triênio 2020-2022, sejam eles benignos ou malignos e tendo o melanoma como o mais incidente (177 mil), seguido pelos cânceres de mama e próstata (66 mil cada).

tumor maligno e tumor benigno

Atualmente, como principais opções de tratamento para o câncer temos a radioterapia, a quimioterapia e a imunoterapia. Após a realização de exames e o diagnóstico fechado, com informações de local, tamanho, tipo e condições do tumor, será definido qual opção de tratamento será adotado ou até uma composição das terapias.

Na radioterapia se utilizam radiações ionizantes para destruir ou impedir que as células do tumor aumentem. Segundo o INCA, uma relevante parcela dos pacientes com câncer são tratados com radioterapia e o resultado costuma ser muito positivo. “Para muitos pacientes, é um meio bastante eficaz, fazendo com que o tumor desapareça e a doença fique controlada, ou até mesmo curada. Quando não é possível obter a cura, a radioterapia pode contribuir para a melhoria da qualidade de vida. Isso porque as aplicações diminuem o tamanho do tumor, o que alivia a pressão, reduz hemorragias, dores e outros sintomas, proporcionando alívio aos pacientes”, afirma o INCA.

O acelerador linear

A radioterapia tem como equipamento principal o acelerador linear que, por sua vez, tem como princípio de funcionamento a emissão de radiação ionizante em uma dose, direcionada e precisa ao núcleo das células tumorais, de maneira a atuar no DNA ou cromossomo da célula doente, matando ou inibindo seu crescimento celular e afetando o mínimo possível de tecidos saudáveis e partes normais localizadas próximas. 

Elekta
Varian

Por gerar uma dose de radiação significante a ponto de destruir as células doentes, o acelerador apresenta princípio de funcionamento e requisitos de instalação complexos. E para conter sua radiação sem afetar ambientes próximos, necessita que o local a ser instalado tenha proteção radiológica, normalmente por faces de concreto de grandes dimensões.

Como este é um assunto muito solicitado por nossos leitores, elaboramos este post caprichado com 10 DICAS IMPORTANTES para a implantação de acelerador linear.

Radioterapia: 10 dicas importantes na implantação de Acelerador Linear

1. Ambientes do Acelerador Linear

Para iniciar nossa conversa, vamos primeiramente apresentar os ambientes e espaços a serem previstos para um acelerador linear.

Fonte: Eng. Vinicius Santa Cruz – Equipacare
  1. Circulação de acesso à sala de tratamento
  2. Comando / sala de controle
  3. Labirinto
  4. Área de tratamento
  5. Área técnica do equipamento
  6. Sala / área para chillers de resfriamento
  7. Sala para componentes elétricos

Esses ambientes são essenciais para a instalação e uso de um acelerador linear. Para efeito prático neste material, vamos considerar em alguns momentos o agrupamento das áreas 4 e 5, nomeando como sala de tratamento.

Atualmente no país temos dois fornecedores principais, que são as empresas Elekta e Varian. O fornecedor Elekta separa a área técnica do equipamento com uma barreira física. Já o fornecedor Varian, ainda que tenha pequena área técnica ao fundo, mantém os ambientes integrados.

2. Dimensões da sala de tratamento (área técnica e área de tratamento)

Aceleradores lineares são equipamentos bem grandes e, por consequência, necessitam que a sala de tratamento possua dimensões livres consideráveis. Vamos apresentar no quadro abaixo as dimensões necessárias para os principais modelos e de maior dimensão dos fornecedores Elekta e Varian.

Fonte: Eng. Vinicius Santa Cruz – Equipacare
Fornecedor ModeloElekta InfinityElekta Versa HDVarian Vital BeamVarian True BeamSugestão Equipacare
Eixo X6150 mm6150 mm7011 mm7011 mm7100 mm
Eixo Y6650 mm6650 mm6096 mm6096 mm6650 mm
Fonte: Eng. Vinicius Santa Cruz – Equipacare

Caso o projeto em elaboração já tenha a informação de qual será a marca e modelo de equipamento, o ideal é já adequar as dimensões do projeto para este modelo específico. Porém, se no momento de planejamento e projeto da área na planta ainda estiver distante da definição do equipamento, sugerimos prever dimensões pelo pior caso, que não delimitem a escolha futura.

Observação: Não consideramos o equipamento Halcyon da Varian, por apresentar requisitos de dimensões consideravelmente abaixo dos demais modelos, optamos por listar equipamentos tradicionais.

3. Proteção radiológica / CNEN

Após definição das dimensões do Eixo x e do Eixo y, assim como pré-definição do modelo de aparelho com seu respectivo isocentro (idealmente em conjunto com fabricante), será necessário que o físico especializado calcule a blindagem e elabore projeto de radioproteção.

O projeto elaborado deverá informar, em especial, as dimensões de todas as faces do ambiente (parede, piso e teto). Este físico também será responsável por encaminhar e aprovar o projeto na Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN) para aprovação. É somente com essa aprovação que será possível obter a licença de importação do equipamento e evoluir com os projetos e execução da implantação / reforma.

Fonte: Eng. Vinicius Santa Cruz – Equipacare

Eventualmente pode-se aprovar o projeto considerando determinado modelo/fornecedor e, em momento futuro, solicitar nova análise e aprovação considerando alteração desse modelo do aparelho.

ATENÇÃO!

No dimensionamento das faces do bunker vale atenção para com a densidade e o grande volume de concreto (ou outra solução adotada), principalmente sobre os aspectos de custo, logística de fornecimento e execução do “bunker”.

Existe fornecedor que inclusive vende uma solução totalmente modular de bunker (se ficaram interessados em saber mais, comentem ou entrem em contato com nossa equipe).

4. Entorno da sala de tratamento

Além dos ambientes diretamente relacionados ao acelerador linear, vale listar outros ambientes constantemente presentes no setor e de grande importância para o serviço.

Fonte: Eng. Vinicius Santa Cruz – Equipacare

1. Sala Físico / Planejamento

Tão importante quanto o tratamento, é o processo de planejamento, pois nele que se determina a dose, o tipo de feixe e a energia a ser utilizada. Essa etapa envolve diversos profissionais, em especial o físico médico e o médico. Deve ser prevista área confortável e sem presença de ruídos externos para um bom planejamento.

2. Consultórios

Desde a primeira consulta, para se iniciar o planejamento do tratamento, até o final da radioterapia, este ambiente é utilizado para o acompanhamento do paciente. As consultas também criam vínculos entre a instituição e os pacientes, auxiliam em dúvidas e tornam a relação mais humana.

3. Sala de Moldes e Máscaras

sala de moldes e mascaras
Fonte: Desconhecida

Ambiente destinado à confecção de moldes e máscaras termoplásticas utilizados em tratamentos nas regiões de cabeça e pescoço. Nele é importante ter uma mesa de tampo plano, posicionadores e banho-maria para a confecção de moldes e máscaras. Em alguns projetos se faz essa confecção dos moldes na própria sala de tomografia, mas a previsão de ambientes distintos otimiza o tempo e o fluxo de trabalho.

4. Sala de exames de tomografia / planejamento radioterapia

Neste ambiente temos um aparelho de tomografia destinado à simulação da posição a ser realizado o tratamento, realização de exames para posterior planejamento e a marcação de pontos através de lasers, para que a posição seja reproduzida em todo o tratamento.

Sala de Tomografia – Fonte desconhecida

No nosso canal do YouTube temos um vídeo bem interessante sobre sala de exames em pronto atendimento que tem informações que são válidas para este ambiente. Assista!

5. Necessidades Elétricas

Assim como os demais equipamentos hospitalares, o acelerador linear é alimentado em tensão de 380 V ou 480 V trifásico, a depender do fornecedor, e requisição de grande potência elétrica. Para ajudar no planejamento preliminar de tais projetos, fizemos um quadro apresentando as potências dos principais modelos do mercado (2021):

Fornecedor – ModeloElekta
Infinity
Elekta
Versa HD
Varian
Vital Beam
Varian
True Beam
Sugestão
Equipacare
Potência70 kVA70 ~100 kVA48 kVA48 kVA70 kVA
Fonte: Eng. Vinicius Santa Cruz – Equipacare

Tanto Varian, quanto Elekta, necessitam de uso de estabilizador ou nobreak, sendo de responsabilidade do cliente a definição sobre qual item adotar. Para maior facilidade no posicionamento desse item, sugerimos que se preveja local próximo à sala de tratamento para sua instalação.

6. Infraestrutura de piso

Este acaba sendo um dos itens mais críticos na preparação da infraestrutura para o acelerador linear! As necessidades de piso variam entre caixas, eletrodutos e eletrocalhas destinados a diversos tipos de interligações e em organizações totalmente diferentes (conforme modelo), além da necessidade de execução do fosso do equipamento, que é uma grande área de desnível que deve ser perfeitamente executada, específico à cada modelo e fabricante.

Fonte: Varian
Fonte: Eng. Vinicius Santa Cruz – Equipacare

Acima desse fosso será instalada a mesa e assim se prevê o isocentro do equipamento, tornando de grande importância seu perfeito posicionamento e a qualidade do concreto lançado na base dele.

Sempre que possível, é preferível aguardar a definição da marca e modelo do equipamento para executar o site, para que se tenha o projeto de instalação específico e assim prever e executar as infraestruturas necessárias. E mesmo com essa definição, a operação é complexa pelo volume de aço presente no piso a ser concretado.

Já em sites que se prevê a execução da obra sem a aquisição do equipamento, sugerimos prever desnível de 600 mm a ser concretado futuramente. Prever ainda comunicação através de canaleta de forma com a sala de comando. Essa possibilidade deve ser amplamente discutida, contando com a presença do físico e do engenheiro, gestores e responsável pelo cálculo estrutural.

Fonte: Eng. Vinicius Santa Cruz – Equipacare

7. Climatização

Outro espaço do bunker onde se prevê diversas instalações é no entreforro, sendo que dentre estas cabe maior atenção para com a climatização. É necessário se prever uma área acima da porta para a passagem dos dutos e demais instalações, similar ao apresentado na próxima imagem.

Fonte: Eng. Vinicius Santa Cruz – Equipacare

Ao se calcular os equipamentos e dutos envolvidos na radioterapia deve-se ter cautela com a dissipação térmica do acelerador linear.

Os fornecedores apresentam parâmetros de temperatura, umidade e renovação que precisam ser atendidos de maneira automatizada, além de outras exigências como uso de equipamento central e recomendação de uso exclusivo ao bunker. Abaixo ilustramos uma instalação típica:

Fonte: Eng. Vinicius Santa Cruz – Equipacare

8. Infraestrutura de parede e lasers de posicionamento

Após apresentar itens sobre instalações de piso e teto, não poderia faltar os itens instalados nas paredes. Considerando um bunker com aproximadamente 80 m² (nosso projeto exemplo), faces de grandes dimensões, imenso volume de concreto e aço e vários itens importantes a serem instalados nas paredes, uma solução simples e acessível que facilita a distribuição das infras para os itens necessários nas paredes é o uso de drywall.

Prevendo as paredes em drywall, mais facilmente se instala toda a infraestrutura e itens necessários para o bom funcionamento do serviço.

Fonte: Eng. Vinicius Santa Cruz – Equipacare

Entre esses itens, entendemos como mais importante os lasers de posicionamento. Os lasers ficam localizados nas duas paredes laterais, um na parede em frente aos pés do paciente e, eventualmente (a depender do físico) um último no teto.

A posição desses itens deve ser exatamente aquela definida nos documentos (manual de instalação) disponibilizados pelo fabricante, apresentamos imagem ilustrativa recebida de um dos fabricantes:

Fonte: Elekta

9. Circuito de água gelada

O acelerador gera grande quantidade de calor em seu funcionamento e, consequentemente, demanda chiller exclusivo para o seu resfriamento. Dessa maneira deve-se prever tubulações de águas geladas em área próxima à hachurada na imagem abaixo e posicionar o chiller exclusivo posicionado em ambiente externo e com uma distância inferior a 50 metros da sala de tratamento.

Fonte: Eng. Vinicius Santa Cruz – Equipacare

E dependendo da posição desse chiller é importante prever a passagem da tubulação do circuito na estrutura do bunker de maneira a sair na área de utilização próxima ao acelerador. Essa medida é bem positiva, porém exige um cuidado adicional com a etapa de armação e concretagem.

Fonte: Eng. Vinicius Santa Cruz – Equipacare

Um último ponto interessante sobre o circuito de água gelada é que podem ser previstas duas unidades para funcionamento operando em paralelo. Essa operação ocorre idêntica ao que sugerimos para Ressonância Magnética, que inclusive temos uma publicação bem completa sobre esse assunto no nosso blog

A previsão de dois chillers redundantes ainda possibilita que eles, projetado previamente, atuem em sistema integrado de maneira a alimentar os equipamentos de climatização ambiente em um único sistema. O fornecedor Mecalor, por exemplo, além de possuir chillers de ótima qualidade, fornece essa solução completa.

Fonte: Mecalor

10. O “Rigging”

Ao final da preparação do site e aprovação em inspeção final do fabricante, se inicia uma das etapas de maior atenção do projeto, o “Rigging”.

O Rigging é o processo de entrega do acelerador e todos os itens fornecidos juntos a ele. Para realizar este processo, o cliente deve contratar previamente empresa experiente em entrega de equipamentos médicos, como a Focuslog e a Mopri.

Fonte: Eng. Vinicius Santa Cruz – Equipacare

A empresa deve visitar o site presencialmente e avaliar opções definidas entre cliente, fornecedor do acelerador, engenharia clínica e engenharia hospitalar/obra. A análise destas opções auxilia, inclusive, na contratação da empresa do Rigging.

O processo do Rigging leva em torno de 2 ou 3 dias e, para sua programação, se verifica as dimensões e a massa dos maiores itens a serem ingressos na edificação.

Fonte: Varian
Fonte: Elekta

Em nossos clientes avaliamos a rota de acesso desde o início do projeto. Levantamos informações e definimos opções junto com a equipe de arquitetura, conforme imagem ilustrativa. Dessa maneira, evitamos grandes surpresas, mapeamos riscos e garantimos um processo tranquilo de Rigging.

Fonte: Eng. Vinicius Santa Cruz – Equipacare

Considerações Finais

Colocamos neste material diversas dicas para se implantar uma sala de radioterapia baseada em nossa experiência prática, mas em implantações hospitalares e de bunkers não existem fórmulas mágicas. Então, sugerimos que cada solução seja amplamente analisada para a realidade específica do projeto.

O mais importante para o sucesso do proejto é contar com bons profissionais, incluindo arquiteto hospitalar, físico médico e projetistas experientes. Também é imprescindível contar com uma equipe de consultoria em Engenharia Clínica que atue de forma estratégica, tal como a Equipacare. Esses profissionais, trabalhando em conjunto, garantem maior segurança e qualidade em todas as etapas.

Gostou do conteúdo? Ficou com alguma dúvida ou quer conhecer mais nosso trabalho? Entre em contato conosco! Nosso time ficará muito feliz em ajudar: (24) 98119.1448 / [email protected]

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Engenheiro Civil, pós-graduando em Engenharia e Manutenção Hospitalar. Atua há 10 anos em estabelecimentos de saúde, inicialmente em nível técnico e no últimos sete anos em etapas de dimensionamento, comissionamentos, auxílio às instalações e questões estratégicas do negócio. Já participou de aproximadamente 100 projetos de unidades de saúde e da equipagem e auxílio à implantação de mais de 60 unidades de saúde.

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